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fado.

Espetáculo de Ballet Portugal, por Estúdio Ballet Gwen Morris, 7 Julho 2018.

Cena 15, Fado, fotos de João Carlos Sequeira.

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Olhem para o meu Instagram, sou tão bonita… Ou será que não?

Ou será que não? Ou será que se não tiver uma cara como a da Angelina Jolie, as pernas da Sara Sampaio, o rabo da Kim Kardashian, a cintura da Alexis Ren, o thigh gap da Kendall Jenner, os braços da Ariana Grande não sou boa o suficiente? Ou, pelo menos, ter o mesmo número de seguidores que elas.

Se a intenção de criar redes sociais não era a de gerar ansiedade e causar baixa auto-estima, especialmente aos mais jovens, o que é facto é o que realmente está a acontecer e a um nível cada vez mais alarmante.

A cabeça de uma rapariga de 16 anos já é suficientemente complicada, mais a pressão que existe hoje por parte de outras “mulheres-modelo” torna ainda mais complicado o trabalho de a decifrar. Cria-se uma imagem de perfeição inexistente, já que tudo o que se posta, mesmo que possa ser real, não é tudo. Há vida além das redes sociais, que por alguma razão não é partilhada. Afinal de contas, não convém ninguém saber que chumbaste o exame de condução, que estás em dívida ou que te despejaram de casa. Não soa muito bem, nem à tua reputação. Não, em vez disso publica-se a viagem a Paris ou a Bali ou o novo carro que te ofereceram pelo aniversário.

Tudo isto gera um grande sentimento de frustração, com mais destaque nos mais jovens. A ideia de que há pessoas que se tornam famosas aos 18 anos, por vezes até bem mais cedo, e que têm logo a vida praticamente feita e resolvida até a mim me assombra. É como se fosse uma inútil por ainda não ter descoberto o meu talento ou ter descoberto o próximo grande negócio. Não me tornei viral, não sei fazer vídeos no Youtube nem pousar para as câmeras. Não sei o que fazer para almoço amanhã, quanto mais o que fazer da minha vida. Todavia, não é normal aos 16, 17, 18 anos já viver sozinho e independente.

Isto pede uma intervenção, mas como? Proibir as pessoas de postar? A questão é que não há maneira de controlar o Instagram, a não ser a partir da própria iniciativa de quem lá está. Se há contas que me fazem sentir mal acerca do meu corpo, do meu trabalho, ou do que quer que seja, pergunto-me “Porque as sigo?”. Se não houver uma resposta suficientemente plausível, deixo de seguir. Tento substituir então por contas que passam um pensamento positivo e uma imagem da mulher mortal. Nem todas temos as medidas das  modelos da Victoria’s Secret, na verdade só uma minoria as tem, porém se formos ver as marcas Aerie ou Lonely Label a história já é outra (não, não estou a ser patrocinada haha).

Outra ideia seria a ausência, durante algum tempo, nas redes sociais, pelo menos o tempo suficiente de já não sentir a necessidade de as abrir quando estou aborrecida. E obviamente que não me refiro apenas ao Instagram, apenas falo mais dele por ser, por enquanto, a rede social hit, e por ser também muito visual, o que nos traz aos tais body goals, relationship goals, não sei mais o quê goals.

A conclusão? Está na hora de sabermos pensar por nós próprios e saber separar o mundo real e o mundo das redes sociais, onde tudo é perfeito, impedindo que este último afete o primeiro, impedindo que nos traga problemas, desde físicos a mentais. A vida de uma pessoa vai muito além de uma fotografia, por isso não deixes que essa fotografia vá além do teu Instagram.

xx, Júlia


Publicado em CHINASKY, 29/8/2018

 

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A Júlia é um cisne.

“We all know the story. Virginal girl, pure and sweet, trapped in the body of a swan. She desires freedom but only true love can break the spell. Her wish is nearly granted in the form of a prince, but before he can declare his love her lustful twin, the black swan, tricks and seduces him. Devastated the white swan leaps of a cliff killing herself and, in death, finds freedom.”

“It’s about a girl who gets turned into a swan and she needs love to break the spell, but her prince falls for the wrong girl so she kills herself.”

Quando era pequenina e ia para o infantário levava muitas vezes o DVD do Lago dos Cisnes comigo. Raramente o punham a dar – na verdade, nem me lembro de alguma vez o ter visto lá – , apenas levava para olhar para ele e para mostrar a todos o meu filme favorito.

Comecei a dançar Ballet aos 5 anos, por vontade própria. Os meus pais nunca perceberam de onde tinha tirado a fixação de dançar, penso que, muito provavelmente, foi desse filme da Barbie. Os anos foram passando e deixei o filme para ouvir a orquestra do Bailado, a qual já canto de trás para a frente e de frente para trás.

Em 2010 saiu o filme The Black Swan, que não tem nada a ver com o conto original, mas que as pessoas o interpretam de uma maneira semelhante. Há quem o interprete como uma história de amor, eu vejo como uma batalha interior da protagonista.

O Cisne Branco representa a pureza, a fragilidade e a inocência de Nina, que começa como uma criança tímida, ingénua, à procura de perfeição. O problema começa quando lhe é exigido que ela se transforme no Cisne Negro, símbolo de mulher, devendo, segundo o director, perder o controlo, perder-se a si própria, ser impulsiva, ser sensual, seduzir. Todo o processo de amadurecimento da protagonista é lento e doloroso, o que lhe leva a ter alucinações, são as dores do crescimento.

A razão a qual falo deste filme não é aleatória. Achei necessário falar por duas razões. Primeiro, porque farto-me de ver o enredo das histórias como um homem (como se a vida das mulheres se resumisse a isso – estamos na Arábia Saudita ou quê???). Depois, porque voltar a casa depois de um ano de reviravoltas na minha vida faz me sentir como se fosse uma má pessoa.

Como se o eu ter percebido que não estou cá para agradar ninguém, nem para ninguém me usar fosse um sinal de egoísmo, de arrogância. Mas cresci, cresci da maldade da adolescência, e continuo a crescer. Ninguém nos diz o quanto uma criança ou um adolescente podem ser maus e mesquinhos uns para os outros. Será falta de confiança? Será um sentimento de inferioridade a querer se passar por superioridade? O que interessa é que, ao contrário de antes, pouco me importa o que pensam de mim. Os únicos que nos interessam são aqueles que realmente se importam connosco. Já dizia o Mac Miller, “I’m only keepin’ good company / I am not talkin’ to you if you don’t have love for me”.

Não vou negar que o secundário foi, até agora, a melhor fase da minha vida. Todavia, mudar me e ter entrado na Universidade mudou tudo. Quando volto a casa e vejo aqueles que cá ficaram apercebo-me que eles ficaram na mesma página. Como li uma vez: “Sometimes we grow, but what’s around us hasn’t. We need to find environments where we can be healthy and thrive” (peço desculpa pelo excesso de citações em inglês, e não, esta não é a última). É como se voltasse agora ao infantário e tudo parecesse bem mais pequeno do que na altura em que lá andei. Não encaixo, aqui e ,por enquanto, em lado nenhum, o que me dá uma sensação de estar perdida. Porém “now that you don’t have to be perfect, you can be good” (John Steinbeck).

Não sei se me fiz entender. Depois de escrever, apagar, reordenar e de ler umas cem mil vezes a mesma coisa nem eu sei se percebo o que para aqui vai. O que vocês devem reter é que eu estou bem, e se, por alguma razão, parece que mudei as minhas atitudes é porque realmente mudei, mas a maneira como trato cada um depende puramente daquilo que recebo. Se faz de mim má ou boa pessoa, não faço ideia, mas faz me mim a Júlia.

xx, o novo Cisne Negro

 

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Decisões e a Falta de Soluções

Estamos na meta final do primeiro semestre do primeiro ano e, tal como temia, as minhas dúvidas mantêm-se em relação ao curso, a incerteza de saber se é isto que realmente gosto ou se é normal esta insegurança. Será que passa pela cabeça de outras pessoas mudar de curso? Será que elas se sentem preparadas para continuar a estudar isto durante mais 2/ 3 anos, no mínimo!? A verdade é que fui para Direito por várias razões, menos a de ser a minha paixão. É um curso clássico, geral, com prestígio e empregabilidade. Que mais se pode pedir?

No dia que descobri que entrei na faculdade não senti absolutamente nada. Nem estava ansiosa para saber onde tinha sido colocada. Só aqui devia ter percebido que algo não estava bem. O facto da minha família e amigos contarem, com mais entusiasmo e orgulho que eu, a terceiros que estou em Direito devia ser um grande red flag. Todavia, ainda sinto um friozinho na barriga só de pensar na ideia de desistir. Era, supostamente, uma grande decisão já tomada. A razão a qual estou a repensá-la é porque sou eu que vou ter que acordar todos os dias entusiasmada para estudar e, eventualmente, trabalhar.

Por um lado, gostava de continuar e fazer o 2º semestre, para garantir que não estou a cometer um erro, porém, por outro, estou tão cansada e tão desejosa de acabar logo isto que me ponho a pensar se não será melhor fazer uma pausa de tudo. Ir para casa e apreciar aquilo que eu nunca apreciei, pois sempre tomei como garantido, e apenas pensar melhor naquilo que realmente quero com calma, sem pressões, sem pressas.

Ainda assim, o que me impede de fazer isto é o medo. O medo de falhar – mas não estarei a falhar comigo própria se fizer algo que não gosto? O medo do que possam pensar de mim  – mais outra perdida na vida. É neste contexto que vejo inspiração em cada pessoa que já passou por isto e que seguiu em frente com o seu sonho, quer tenha estatísticas assustadoras no que toca ao desemprego ou não.

Se mudar, não me arrependo de ter “perdido” um ano. Nunca se estuda demasiado, nunca se aprende demasiado e não foi só Direito que aprendi, acreditem. Foi e está a ser uma grande experiência, desde a mudança radical de ensino a cozinhar e a saber viver sozinha. Um processo que me trouxe também muitas caras novas e com quem eu sei que posso contar. É aqui que se apercebe que, por vezes, mais difícil que gerir o dinheiro é gerir o tempo que nos sobra da grande balbúrdia que a vida é.

Suponho que o que tenha que fazer agora é decidir-me.

xx Jules

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Esses olhos de serra

Ao publicar este poema no blogue quis escrever a minha interpretação, no entanto, mesmo sendo a autora, não há significados originais nem oficiais na poesia. Dar um sentido fixo e imóvel a um poema não tem piada, se é que não perde a sua essência sequer, se é que não morre, se é que é possível. A minha ambição é partilhar alguns dos meus poemas, uns já conhecidos – como é o caso de hoje, publicado na 2° edição do Poetas da Gil – outros que nunca viram a luz do dia.

Assim, publico um dos meus poemas favoritos, talvez não pela obra em si, mas sim pelo significado. Outrora sentido, hoje pouco me diz. Para mim é a historia de um amor passageiro, temporário. Uma paixão que a razão sabe que não dura, mas pela qual a emoção torce. Para vocês pode ser muita outra coisa.

 

Esses olhos de serra

Deixam o meu corpo e mente em guerra.

O primeiro deseja o sujeito,

O outro rejeita a ideia.

Contigo eu perco o meu preceito,

Perco a noção do que me rodeia.

 

O sorriso é uma vista rara,

Mas quando rasgado

Deixa qualquer um embriagado.

Os cabelos sobre a cara

E o teu grego nariz

Deixam-me bem por um triz.

 

Sabes que não passas despercebido,

Pelo contrário, destacas-te da multidão.

Aprendeste a ser sabido,

Aprendeste a ser um garanhão.

Agora desfilas de cabeça erguida,

Deixas a audiência inibida.

 

Partilhamos a mesma casa,

Não a mesma origem.

Voamos na mesma asa,

Mas não são os mesmos que a dirigem.

Apesar disso, és fonte de inspiração,

Alimento à alma, à paixão.

xx Jules

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Dança na Mudança

Passei todos os meus 17 anos a sonhar fazer os 18 para chegar a meses desse feito e querer recuar no tempo. Mudei de escola, de casa… Caramba… Até de cidade! As caras são diferentes, porém os dias não vão muito além de uma simples rotina. Tenho medo. Tenho medo de cair na monotonia da vida. De acordar às 7h00, ir para o trabalho, para a faculdade, ou o que quer que seja, regressar a casa, cansada, ao final do dia, e num abrir e fechar de olhos a vida passar me ao lado. Tanta mudança e eu volto à estaca zero. Sinto me meio perdida, confusa, sozinha. Será que gostam de mim? Será que não? Será que isso importa? Onde devo traçar a linha entre o “ser agradável com todos” e o “a me estar nas tintas, porque o que importa é o que eu sinto, o que quero, quem sou e para onde vou”? Ai! Como eu detesto esta miúda insegura e pequena!

Procuro amigos, conforto e solidariedade. Procuro passear, integrar me e, por vezes, parecer bem. É tanta coisa com que lidar ao mesmo tempo. Tanta matéria. Tanta tarefa doméstica. Tanta saudade. E eu aqui, à 1h00 da manhã a escrever, porque é à noite, com o cansaço, que a inspiração bate, que há tempo e sossego.

Sou tão nova mas às vezes sinto me tão velha. É a consequência de me aperceber que daqui a uns meses serei – perante a lei, porque perante a vida já sou – responsável pelas minhas ações, pelas minhas escolhas, pela minha vida, embora ainda esteja dependente dos meus pais. Todavia o mundo não vai mudar de um dia para o outro, claro! É sim a sensação dos encargos que vêm gradualmente com a idade. Será que algum dia essas responsabilidades desaparecem? Quando chegar ao expoente máximo e o meu trabalho não for mais do que ditar ordens? Quando me reformar? Quando for velha e finalmente poder suspirar e dizer “A minha vida aqui está feita.” – Espero um dia poder vir a dizer isso… “A minha vida aqui está feita. Estudei, conheci pessoas, viajei o mundo, fiz uma carreira da minha vocação e paixão – nunca trabalhando – arranjei uma casa, conheci o Tal, assentei, tive filhos, fui feliz. Não! Eu sou feliz.” E serei mesmo? Será apenas assim que possa dizer que cumpri a vida e que a vivi ao máximo?

Contudo ainda é demasiado cedo, cedo para tudo e para nada, nunca tarde. Nunca é tarde. Tenho tanto a fazer que falar de uma vida cumprida é crime. Não falemos disso…

xx Jules

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